Sabe, o lado ruim de não me meter com a escória do pagode e do sertanejo é que o Lado Branco da Força também tende a levar as coisas a um extremo meio constrangedor. Na ânsia de mostrar ao mundo suas qualidades canto/danço/interpreto, a turminha mais alternativa acaba caindo num clichê quase tão bobo quanto o dos cowboys de posto, pagodeiros do pé amarelo e demais seres invertebrados anaeróbicos.
Ser cultural é a nova onda do momento. Significa que você está antenado com todas as novidades do circuito Nova York-Londres-Paris-Moscou-Eslováquia, mesmo que o lugar mais longe para o qual você já viajou na vida tenha sido Mongaguá. O indivíduo cultural aprende a enxergar cultura e refinamento nos mais singelos objetos: abajures, saboneteiras, cd do Strokes... tudo isso pode ser sinônimo de sofisticação e refinamento.
E o Você de Novo Não!, mais uma vez na vanguarda do comportamento do juvenil jovem do século XXI, vai te deixar por dentro dessa nova mania. Em 5 passos, você aprenderá tudo o que precisa saber para ser um jovem descolado, moderno, antenado e cultural. Entre nessa você também, embarque nessa viagem rumo a esse excitante universo cheio de magia, aventura e paquera.
1. Seja cosmopolita
É a essência do cultural. Todo mundo que quer ser cultural TEM que ser cosmopolita, que significa falar o máximo que você puder sobre Starbucks/Outback/Burger King.
Starbucks tem em toda esquina (literalmente) em qualquer cidade do hemisfério norte. O que eles fazem? Servem café. O americaninho, seja ele um servente de pedreiro ou um estudante universitário, entra na loja, pede um café e, imagine só, bebe o café. Daí ele paga e vai embora.
Mas o indivíduo cultural sulamericano cosmopolita transforma o ato de beber café na Starbucks em uma experiência de som e imagem capaz de aguçar a percepção sensorial e levá-lo a um mundo único de luxúria e prazer. É quase um orgasmo cultural. O cultural consegue experimentar dois tipos de orgasmo relacionados à Starbucks: a) Comprar um café; b) Postar no Twitter que está na Starbucks.
Com Outback e Burger King, é a mesma coisa. Um serve costelinha assada, o outro serve sanduíche vagabundo. Mesmo que o Burger King seja, no seu país de origem, um estabelecimento de higiene e asseio extremamente questionáveis, o homo culturalis faz com que a ingestão de um Whopper seja comparada a um passeio pelos maiores museus do mundo. Uma dose dupla de cultura cosmopolita e urbana.
2. Vá ao teatro
O teatro é a Meca de qualquer pessoa cultural. Assistir a uma peça teatral é banhar-se no mais sagrado rio de cultura e sofisticação. Se você for ao teatro, é garantido que sairá de lá cheio de cultura artístico-dramatúrgica, mesmo que peça em cartaz seja Super Xuxa contra o Baixo Astral. Não tem como errar. Ao dizer "vou ao teatro", seus amigos cosmopolitas e culturais vão te olhar de forma diferente, com reverência e respeito. Refinamento, meu caro. Refinamento...
Portanto, convide os seus amigos e mãos à obra! Depois da peça, vocês podem se reunir no Burger King ou no Hot-Dogue do Cidão (o equivalente da sua cidade ao Burger King, caso você viva nas Patrocínio, Tuiutaba e Paciguara da vida) e debaterem sobre como foi delicada e de bom gosto a interpretação da atriz que fez o papel da Chapéuzinho Vermelho.
3. Diga que gosta de blues
Blues é um baita de um estilo musical legal, com músicas que dificilmente ultrapassam os 3 acordes. Foi criada por negros do sul dos EUA, desafiando a complexidade das músicas então vigentes ao elaborarem um tipo de música cuja execução e composição são bem simples.
Por algum motivo, todo homo culturalis tem que dizer que adora blues. Não precisa realmente gostar, só dizer que gosta. "Po, curto demais um blues." Basta ouvir aquela levada característica que o cara cultural já começa a achar que é do Mississipi.
Já notaram que toda música de blues é "um blues"? Ninguém nunca cita um artista do estilo ou o nome de uma música. É sempre "um blues".
Se você gosta de rock, diz "ontem tocou Rolling Stones no bar".
Se gosta de pop, diz "ontem tocou Lady Gaga".
Se você é um lixo de gente, diz "ontem tocou Maria Cecília e Rodolfo".
Mas, se você for cosmopolita, diz: "ontem tocou um blues". É batata.
4. Seja um pseudo-cinéfilo exótico
Filmes de países distantes e de língua não-inglesa aumentam uns 100 pontos no seu culturômetro. Não há nada mais cultural do que cinema francês, tcheco, iraniano ou belga. Cada filme desses equivale à leitura de uma enciclopédia inteira, para a sua bagagem cultural. Quanto mais desconhecido e exótico for o país de origem da película, melhor.
Aqui, o Twitter volta a se tornar extremamente importante. Poste tweets que nem você entende, citando empolgadamente os diretores dos filmes como se todo mundo os conhecesse."Caramba, o último filme do Helmut von Sauerkraut é demais, um dos melhores desta nova safra de diretores germânicos avant-garde."
Filme americano atual, nem pensar. Só se for dos irmãos Coen ou do David Lynch. Spielberg é lixo, tosco, produções enlatadas para as massas manipuladas pelos interesses escusos dos estúdios de Hollywood. Mas lembre-se: 1) Francis Ford Coppola e Stanley Kubrick são deuses incomparáveis, mesmo que tenham ficado zilionários e você não tenha entendido porra nenhuma de Laranja Mecânica ou Apocalypse Now; 2) É essencial que você saiba de cor todos os diálogos de Amélie Poulain.
5. Seja enólogo
De acordo com a Wikipédia, "Enologia é a ciência que estuda todos os aspectos relativos ao vinho, desde o plantio, escolha do solo, vindima, produção, envelhecimento, engarrafamento e venda."
Ou seja, enologia é a ciência que te ensina a ser um pau no cu. O que a maioria das pessoas trata como suco de uva com álcool, você considera como sendo um néctar dos deuses europeus cuja sabedoria necessária à correta apreciação é resultado de décadas de estudo e experimentação.
Você sai com os amigos, pede um Chateau Zinedine-Zidane da safra de 1876 e, ao invés de beber a droga do vinho, começa a focinhar a taça da mesma forma que um cachorro cheira o próprio rabo. "Que edição divina. Este vinho possui notas suaves de carvalho, combinando leveza e personalidade na medida certa. Tem um sabor moderno, contudo não deixa de lado o tradicionalismo da marca."
Mesmo que o resto do planeta tenha vontade de te assassinar a garrafadas de Chateau Qualquercoisa, seus amigos culturais vão te achar ainda mais sofisticado e conhecedor. Um verdadeiro sommelier. Um boiolão.
Cara, eu devia cobrar pelas dicas que o blog dá. Tá vendo só? Agora você já pode ser culturalzão. Mandem brasa, tesouros.